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Publicação de Artigo · Desenvolvimento Humano

Eu sou Charlie Gordon

Um ensaio sobre o livro "Flores para Algernon" e minha própria história

13 min de leitura2.798 palavras04 out 2026

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Eu sou Charlie Gordon

“Uma tragédia só pode ocorrer para os nobres, porque só se pode sofrer uma queda trágica de uma grande altura.” — Aristóteles, Poética

No começo do segundo semestre de 2026, entrei numa sala de aula lotada — provavelmente uma das maiores turmas que já tive. Quase 80 alunos, distribuídos em mesas redondas, em grupos de seis a oito pessoas. Sobre uma delas repousava um livro de capa preta e amarela: Flores para Algernon, de Daniel Keyes.

Enquanto esperava a turma se organizar, perguntei àquele grupo de quem era o livro e do que se tratava. Cerca de cinco alunos se apressaram, com entusiasmo, a me contar a história. Charlie Gordon tem 32 anos, um QI de 68 e um emprego braçal numa padaria, arranjado pelo tio. Frequenta as aulas de leitura da senhorita Alice Kinnian e acaba escolhido pelo Professor Nemur e pelo Dr. Strauss para uma cirurgia experimental que promete torná-lo inteligente — a mesma que já transformou um rato de laboratório chamado Algernon. Aquilo me pegou de imediato. Eu tinha acabado de terminar uma leitura e procurava outra para ocupar o espaço deixado. Não hesitei: prometi a eles que o leria.

Além de empreender no mercado de Tecnologia, leciono em cursos de graduação em Ciência da Computação há mais de 16 anos. Em 42 anos de vida, poucos livros me provocaram uma reflexão tão profunda sobre mim mesmo. Tal como as notas finais de Charlie, este texto é uma carta de reconhecimento e, acima de tudo, de agradecimento.

O livro tem cerca de 300 páginas; não é, portanto, longo. Ainda assim, demorei mais do que o habitual para lê-lo: estudei cada página e, a cada trecho, refleti sobre mim mesmo. É escrito em forma de relatórios, em primeira pessoa: o próprio Charlie narra sua história. O relato começa de forma infantil e desajeitada, com erros de grafia que denunciam seu QI, e vai ganhando corpo, vocabulário e entusiasmo à medida que o efeito da cirurgia se torna evidente. A prosa cresce junto com ele.

Aqui, corto para a minha própria história.

Eu fui uma criança muito introspectiva. Tinha dificuldade para fazer amigos e para me concentrar. Tinha uns seis anos e me lembro claramente daquela época. Sentávamos em carteiras conjugadas, assento e mesa numa peça só, mobília típica de outro tempo.

Quando tocava o sinal do recreio, eu fingia arrumar a lancheira bem devagar, espiando as crianças saírem da sala, uma a uma. Quando a última saía, eu me escondia debaixo da carteira. Estendia uma pequena toalha de pano, como quem monta um piquenique para si mesmo. Ali saboreava o lanche, que não era grande coisa: bolachas já murchas com manteiga, ou pão com presunto, e um suco. Entre uma mordida e outra, alguns bonecos de brinquedo me faziam companhia.

Quem me conheceu já adulto costuma supor que fui uma criança prodígio. “Um geniozinho”, já ouvi mais de uma vez. Acho graça sempre que ouço isso. As pessoas não sabem — por mais que eu insista em corrigi-las — que eu tinha muita dificuldade. Tinha vergonha, inclusive, de que meu baixo desempenho fosse o motivo de eu ter tão poucos amigos.

Na padaria, Charlie almoçava cercado de gente que não o via. Joe Carp e Frank Reilly o chamavam para as conversas, levavam-no a festas, riam alto quando ele dizia alguma coisa. E Charlie ria junto. Para ele, aquilo era amizade: se as pessoas riam, era porque gostavam dele. Nos primeiros relatórios, ele escreve com orgulho sobre os amigos que tem. Só mais tarde, já inteligente, entende que “dar uma de Charlie Gordon” era a expressão que usavam para quem fazia papel de bobo.

Há uma diferença entre nós, e ela me diz alguma coisa. Charlie não sabia que estava sozinho; eu sabia. Ele se misturava à mesa sem perceber que era o alvo. Eu me escondia embaixo dela justamente porque percebia. Mas o desejo era o mesmo, e ele o disse melhor do que eu jamais disse:

“Não me importo muito em ser famoso. Só quero ser esperto como as outras pessoas para poder ter amigos que gostam de mim.” (p. 22)

Um olhar desavisado diria que eu gostava daquela condição, ou que a aceitava. Para falar a verdade, eu odiava. Queria muito mudar tudo aquilo.

Sempre tive dificuldade para dormir; mesmo criança, dormia pouco. Num fim de semana, zapeando os canais pela madrugada, caiu na tela "Onze Homens e um Segredo", com Frank Sinatra. Fiquei impressionado com a forma como aquele homem soava eloquente, atraía as pessoas, era seguido como referência. Eu queria ser daquele jeito! Aquela noite despertou em mim um interesse sem igual em mudar minha própria trajetória.

Charlie não foi escolhido por ser o mais capaz. Havia na turma de Alice alunos com resultados melhores. Ele foi escolhido porque queria. Antes de qualquer cirurgia, já ia às aulas depois de um dia inteiro na padaria, insistia nas letras que não entendia, carregava a vontade de ser “esperto” como quem carrega um amuleto. Nemur e Strauss mediram seu QI, mas o que os convenceu foi algo que nenhum teste mede: a motivação.

E há Algernon. Logo no começo, Charlie disputa corridas contra o rato no labirinto e perde todas. Perde para um rato. Ainda assim, volta no dia seguinte. Não havia nenhum Sinatra na vida de Charlie, mas havia aquele bicho branco percorrendo o labirinto mais rápido do que ele: a prova viva de que mudar era possível. Cada um de nós teve a sua imagem do que poderia vir a ser.

Diferentemente de Charlie, meu ponto de virada não foi uma cirurgia, nem qualquer intervenção externa. Foi o desejo, nascido em mim mesmo, de mudar — de ficar mais esperto, como diria Charlie.

Sou neto de um jornalista que sempre foi apaixonado por livros. Como perdi meu pai muito cedo e minha mãe precisava trabalhar o dia inteiro, eu passava a maior parte do tempo com meus avós e tios. A convivência com meus avós me deu, inclusive, hábitos de uma geração anterior: na comida, nos gostos musicais e literários, até nos trejeitos. Às vezes, ainda hoje, me perguntam por que uso termos tão antigos, e eu explico de onde isso vem.

No meu caso, então, a “cirurgia” foi dividida em três partes. A primeira foi a descoberta de que eu tinha, no meu avô, uma fonte de conhecimento.

Antes de Nemur e Strauss, antes de qualquer bisturi, Charlie teve Alice Kinnian. Foi ela quem o viu na turma e acreditou que valia a pena. Foi ela quem lhe pôs os primeiros livros nas mãos, quem lhe ensinou a pontuação com paciência, quem respondia às perguntas que ninguém mais levava a sério. A cirurgia mudou o cérebro de Charlie; Alice mudou o que ele fazia com ele. Meu avô não tinha bisturi, mas tinha uma estante. E, como Alice, sabia que o mais importante não é dar respostas, mas deixar alguém com vontade de fazer a próxima pergunta.

No livro, porém, há um aviso que eu só entenderia muito depois:

“Quanto mais inteligente você se tornar, mais problemas você terá, Charlie. Seu crescimento intelectual vai ultrapassar seu crescimento emocional.” (p. 54)

Entre os 13 e os 17 anos, devorei livros de todos os tipos. Lia de tudo, como recomendava meu avô. Lembro-me do primeiro, que parecia esquecido na prateleira. “Não sou um leitor ávido de poemas”, ele me disse quando peguei uma bela edição de "Uivo", de Allen Ginsberg. A forma visceral como Ginsberg escrevia me impressionou. A revolta típica da adolescência me consumia, assim como o “dínamo estrelado da maquinaria da noite” que ele evoca em "Uivo".

Depois de Ginsberg, não larguei mais os livros. Interessavam-me as biografias: eu buscava, de alguma forma, encontrar a mim mesmo naquelas histórias. Depois vieram os almanaques, que me apresentavam a temas muito diferentes — História, Filosofia, Ciências. Pouco a pouco, eu ia forjando meu repertório, ainda que meu desempenho escolar se mantivesse apenas no suficiente para passar de ano. A escola não me interessava, porque eu não conseguia ver a aplicação prática do que ensinava, ao contrário do que eu encontrava nos livros.

O que eu aprendia ali ia se mostrando útil. Novos amigos se somavam ao meu convívio. As primeiras garotas pareciam se interessar pela minha capacidade de discordar de uma professora de História. Nada que me tornasse uma celebridade, mas era o suficiente para eu seguir avançando.

Quando a inteligência chega, Charlie devora livros da mesma forma. Lê em várias línguas, passa noites na biblioteca, entra nas discussões dos estudantes da universidade sobre Shakespeare, Deus e política. E, como eu diante da professora, logo começa a enxergar as falhas de quem antes lhe parecia inalcançável. Mas aqui nossos caminhos se separam. Para mim, cada livro trouxe pessoas para perto. Para Charlie, cada livro as afastou. Os colegas da padaria passam a ter medo dele; os professores se sentem ameaçados; até Alice fica para trás. O intelecto de Charlie cresceu num salto, mas o menino que almoçava sozinho continuava lá dentro, sem ter tido tempo de crescer junto. O meu, ao contrário, teve anos para acompanhar cada página.

Charlie quis estar à altura de alguém. No começo, Alice é a professora paciente, lá em cima, e ele, o aluno que mal escreve. A inteligência o aproxima dela, e por um momento os dois parecem caminhar lado a lado. Mas Charlie não para no nível de Alice: passa por ela, sem freio, e o descompasso se inverte. Ele, que queria alcançá-la, agora a deixa para trás, e ainda carrega dentro de si um menino assustado que não sabe o que fazer com o afeto.

Eu também quis estar à altura de alguém, e essa foi a segunda parte da minha cirurgia. Conheci minha esposa, então namorada, quando levava uma vida comum, sem grandes saltos: tinha concluído um curso técnico de Informática, ingressado na graduação e trabalhava. Nada fora do normal. Ao conhecê-la, porém, meu ímpeto se renovou.

Eu achava que aquela garota linda e inteligente tinha se interessado apenas pela minha eloquência. A essa altura, a leitura já me fazia falar diferente da maioria; eu soava mais velho do que era, e aquilo parecia atraí-la. Mas o tempo jogava contra mim. Eu não conseguiria mantê-la interessada apenas na conversa. Precisava ir além, me desenvolver mais e oferecer-lhe perspectivas de futuro.

Passei a me dedicar ainda mais aos estudos e comecei a perceber que havia lacunas no meu conhecimento. Entre a graduação e o trabalho, debrucei-me sobre livros de matemática e ciências, preenchendo o conteúdo a que não tinha dado a devida atenção na escola. Na época, eu me culpava. Hoje entendo que esse tipo de prejuízo não é só individual: a dinâmica pouco ortodoxa da minha estrutura familiar não me permitiu ter um acompanhamento escolar adequado. Mas aquilo não importava. O que importava era seguir me desenvolvendo para estar à altura daquela garota.

Formei-me e, logo em seguida, busquei uma especialização. Mudei de emprego, para uma empresa maior. Um belo dia, esperando por ela na sala de estar da casa dos pais dela, vi um volume encadernado em capa dura, com letras douradas, sobre a mesa. Era a dissertação de mestrado do meu sogro, engenheiro eletricista e, também, mestre. Fiquei impressionado. Aquilo parecia inalcançável para mim. Lembro-me de fazer várias perguntas a ela sobre o assunto; algumas ela soube responder, outras não. Dali nasceu um novo propósito: eu vou fazer um mestrado.

Tive mais sorte que Charlie. Não precisei ultrapassar ninguém. Precisei apenas crescer ao lado de alguém que, sem saber, me apontava sempre o próximo degrau.

A terceira parte da minha análoga cirurgia foi o mestrado. Assim como na graduação, vi-me novamente cercado por um mar de lacunas em conhecimentos elementares que eu precisaria buscar. Só que agora era diferente. Cada coisa nova que eu aprendia se conectava ao método científico, que eu finalmente passara a entender.

Aprendi a formular perguntas e hipóteses, a fazer experimentos. Refutei ideias que eu mesmo tinha. Vi minhas opiniões mudarem diante de novas evidências e, pela primeira vez na vida, me senti realmente livre. Senti que, a partir de então, poderia aprender sobre qualquer coisa. Não me tornaria o melhor no tema, mas o melhor que eu poderia ser. Tudo passou a se conectar, e percebi que o conhecimento não é apenas vertical: é a horizontalidade das coisas que faz tudo ganhar sentido.

Charlie vive o mesmo deslumbramento. Em algum ponto do livro, ele deixa de ser apenas o objeto do experimento e passa a estudá-lo. Pede acesso ao laboratório, lê os dados de Nemur e Strauss, observa Algernon com outros olhos, formula as próprias hipóteses. A cobaia vira cientista. E é nesse momento que as disciplinas, antes ilhas separadas, começam a se tocar, como ele mesmo descreve:

“É incrível a maneira como assuntos, aparentemente sem ligação, se conectam. Atingi mais um platô e, desde então, as correntes das diferentes disciplinas parecem mais próximas umas das outras, como se saíssem de uma única fonte.” (p. 100)

Quando li esse trecho, tive a sensação de estar lendo a mim mesmo naqueles anos.

Depois do mestrado, veio o doutorado. Entre eles, a empresa. E, atravessando tudo, a sala de aula. Segui moldando a mim mesmo com paciência, sem olhar para os lados nem me comparar a ninguém. Percebi que buscar ser o melhor que posso, de forma consistente, me leva mais longe do que os melhores chegam sem consistência. Diferentemente do de Charlie, meu processo não foi criado artificialmente; por isso, foi se tornando cada vez mais sólido. Sigo devoto e humilde ao meu mestre: o desejo de aprender mais.

É aqui que a epígrafe de Aristóteles cobra o seu sentido. Charlie foi levado ao alto de elevador; eu subi pela escada, degrau por degrau. Ele chega a lugares que eu nunca alcançarei. Mas quem não pisou nos degraus não sabe onde eles estão na hora de descer. Sem revelar mais do que devo a quem ainda não leu o livro, basta dizer que o próprio Charlie, já cientista, é quem descobre a regra que governa a sua ascensão:

“Inteligência artificialmente induzida deteriora em uma razão de tempo diretamente proporcional à quantidade de aumento.” (p. 243)

Talvez a maior lição que Charlie me deu seja esta: a minha lentidão, que tanto me envergonhava debaixo daquela carteira, foi justamente o que me sustentou. No começo do livro, quando Charlie ainda mal sabe escrever, alguém reconhece o seu esforço com uma frase que me tocou. Não pelo que ela diz sobre o que lhe foi dado — eu, ao contrário, sempre me reconheci abençoado —, mas pelo que diz sobre o que se faz com isso. É a palavra que eu teria recebido como alento aos seis anos:

“Para uma pessoa a quem Deus deu tão pouco, você fez muito mais do que muita gente com cérebros que nunca usaram.” (p. 46)

Entre o cuidado de não revelar detalhes a quem ainda não teve a oportunidade de conhecer essa bela história e o entusiasmo de contar o quanto ela se cruza com a minha, encerro este pequeno ensaio da mesma forma que Charlie, a quem agora tenho como amigo, se despede: em gratidão.

Sou grato a cada dificuldade que me foi lançada, a cada desafio que forjou quem eu sou. Sou grato às oportunidades que me foram dadas e por ter tido o discernimento de aproveitá-las. E, por fim, como eterno estudante, sou grato aos meus alunos que deixaram este livro sobre a mesa, à espera de ser descoberto por mim. As pessoas não têm dimensão do bem que fazem às outras, mesmo quando não têm essa intenção.

Charlie termina seus relatórios do mesmo jeito: agradecendo. Agradece a quem lhe deu uma chance, ao que aprendeu, à família que reencontrou na memória. E deixa um último pedido, singelo, que dá nome ao livro: que alguém leve flores a Algernon. Não direi por quê. Direi apenas que entendi o gesto. Há seres que percorrem o labirinto antes de nós e nos mostram que a saída existe.

“Estou feliz que tive uma segunda chance na vida. [...] Aprendi muitas coisas que nem sabia que existiam nesse mundo e me sinto grato de ter visto tudo, nem que seja um pouquinho. E estou feliz que descobri tudo sobre minha família e eu. Era como se eu nem tivesse uma família, até eu me lembrar deles e vê-los. Agora, eu sei que tinha uma família e era uma pessoa igual a todo mundo.” (p. 293)

Eu também tive os meus Algernons. Um avô jornalista e sua estante. Uma garota que me fez querer subir mais um degrau. Um livro de capa preta e amarela esquecido sobre uma mesa redonda. A cada um deles, deixo aqui as minhas flores.

Eu sou Charlie Gordon. E sou grato por isso.

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